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14 fevereiro 2015

Colando os Pedaços

Conto 15 injeções. Aperto os dentes em cada uma. Sinto o sangue escorrendo em minha pele após algumas. Ao observar, não vejo como sendo minha perna, parece a perna de um manequim mal feito entre lençois de tonalidades verdes diferentes. Estou lúcida, mas viajo. São as cores que reparo primeiro, salas de cirurgia tem cores marcantes, quem está deitado na mesa cirúrgica pode apreciá-las melhor. Vermelho, verde, azul, verde, verde, verde, branco, branco, branco. O relógio, números em vermelho, tic tac ausente aos meus ouvidos.

A lâmina desliza sob minha pele pálida e já marcada. Espero por uma dor que não vem. Deveria, porque eu mereço. O sangue deixa de escorrer após cauterização. Sinto os movimentos. E estranhamente sinto uma forma de carinho ao segurarem minha perna. Aprecio a pressão da enfermeira sobre elas, me dão uma segurança fingida, uma importância alterada. Sinto não merecer isso, e não aviso que estou sentindo quando os pontos estão sendo feitos. Pouco. Mas sinto. 

Segunda incisão, observo as mãos enrugadas do cirurgião que nem ao menos tremem. Mas eu tremo. Sinto frio. Eu sempre sinto frio. "Essa está profunda, vou fazer uma incisão maior" escuto entre cochichos com a enfermeira. Não querem que eu escute, porque meus olhos permanecem abertos quando deveriam estar fechados, porque permaneço lúcida quando o comprimido que me deram deveria ter me feito dormir.

Desisto de observar a perna de manequim ser refeita. Deito minha cabeça e observo o relógio, até que os ponteiros marquem mais de uma hora e quinze minutos de cirurgia, e sinto fazerem os curativos. Me levanto sem que me digam. Esqueço minha nudez, já viram oque acho mais íntimo em mim, minhas cicatrizes, minha nudez não importa mais. Saio andando normalmente, não porque não sinto nada, mas porque eu tenho que não sentir nada

"Você quem fez isso, deveria ficar feliz com a reconstrução" "Você não deveria ter feito, não merecia fazer a cirurgia reparativa" "Você não queria a dor?" "Você merece o pior". Escuto. Algumas são frases ditas na minha cabeça, outras são escutadas pelos meus ouvidos. Dessa vez as lâminas não eram para ferir, eram para reparar. Não eram para me fazer me sentir viva, eram pra me lembrar quão doente sou.

Estou colando os pedaços. Partes íntimas de mim que ninguém deveria ver. E não irão mais.

07 janeiro 2015

Sobre Mudanças

Faz tempo que não publico nada aqui, na verdade é porque quis esquecer essa pessoa que escrevia esses textos, quis retirar boa parte dessa realidade que tive comigo por tantos anos e tentei me dedicar a ser diferente, a viver coisas novas ou apenas viver de novo.
Então qual o motivo que me fez voltar a escrever? Percebi que nunca irei me desligar dessa estranha tão conhecida que passou por tudo que escreveu aqui, e que mesmo estando diferente eu ainda sinto boa parte do que sempre senti. Mudei sim, tudo ao meu redor mudou, e tenho que fingir constantemente ser alguém que não sou porque no mundo real pessoas como eu não são aceitas. E eu finjo. Nem sempre sou bem sucedida, mas estou sobrevivendo no mundo caótico e comum de todos. Meus monstros continuam comigo, e eu sei que continuo lutando coisas que ninguém que está aqui perto compreende. Desabafar com conhecidos não é uma escolha, porque já a fiz e não deu certo. Escolho então prosseguir e decido ser quem eu realmente sou apenas com quem me der muita confiança ou abrir a minha loucura o suficiente para conseguir tal façanha.

27 março 2014

Tempestades

Meu cérebro chove. Sinto cada palavra rebater na minha pele como uma tempestade de ameças já ditas. Eu vejo você mas você não me vê, sou outra pessoa para você agora, alguém que merece escutar o que tem para dizer. Sinto que quer mais que vingança e que minhas palavras chegarão deturpadas aos seus ouvidos. Então me calo e choro. Minhas lágrimas nunca tiveram timidez ao seu lado, mesmo com as ameaças constantes, isso só as fazem mais fortes. Parar de respirar não seria uma má ideia agora, penso, enquanto palavras retumbam ao fundo. Meu ar se torna rarefeito porque você sempre teve esse poder sobre mim, e sobre o universo inteiro ao meu redor. Não entendo o que você me diz, qual realidade estamos falando? Repito um mantra que nunca deu certo "vá embora, não encoste em mim, vá embora, me deixe em paz", enquanto meu cérebro se liquefaz e meu corpo arde.

"A dramática é você" e "Você está inventando muita coisa" escuto você dizer. Suas palavras ecoam dentro de mim  "mentirosa, mentirosa, mentirosa, mentirosa" confirmando que sou oca como sempre suspeitei. Queria que você tivesse matado nossa família como suas ameaças prometiam. Não queria ter esse pensamento agora. Você abaixa os braços acusativos por alguns instantes e seus olhos relaxam, sua expressão parece confusa e depois de alguns segundos escuto você dizer "Me abraça filha?", agora voltei a ser a sua amada filha, mas não quero seu abraço, quero uma paz que você nunca irá me conceder.

Você sai do meu quarto finalmente, e o silêncio que vem em seguida é um dos poemas mais lindos já feitos. Eu fugi naquele dia, você também, da sua maneira. Eu tentei conversar contigo mas você já fez a sua verdade e extinguiu a minha. Escrevi dois textos gigantes sobre o que eu sempre senti e você não passou da segunda frase.

Tenho pensando em escrever cartas de despedidas porque estou evaporando em cada palavra não dita, e minha realidade parece diferente demais da realidade comum a todos para que agora, de uma hora para outra, eu volte a vida normal. Meu sorriso é de mentira. Meus sonhos são uma ilusão, mas os alimento diariamente para que eu não morra de fome.

01 outubro 2013

Guerras Íntimas


Mas ninguém sabe das minhas guerras. Das batalhas intermináveis que insistem aqui dentro. Nem todos os olhos são espelhos da alma, os meus são enganosos, as vezes acredito serem da oposição. Você pode acreditar ver uma alegria genuína neles, mas se não prestares bem atenção não poderás escutar as bombas que explodem dentro da minha alma, e das granadas que estouram em silêncio enquanto solto a respiração. Ninguém sabe que em dias de guerra Renato Russo jamais esteve tão certo ao proferir que cada estrela parecerá uma lágrima. Meus sonhos são mortos pelo gatilho e ouço os estilhaços caírem ao chão. Tento esconder o conflito e instaurar a paz, mas nem sempre é possível, e sempre é exaustivo. É triste lutar em uma guerra obrigada, onde você sabe que não saíra vencedores. Só vencidos.

Tento que minha guerra não atinja pessoas inocentes, mas elas são pegas as vezes, e sinto o peso de cada uma delas a me afogar. Uma alma pesa bastante sabe? Um momento perdido, por mais que sejam só alguns momentos, me pesam demais. Ninguém nunca se acha em combates afinal querido, só se perde. Entenda agora o porque mal nos encontramos e já estamos nos perdemos. Essa é minha guerra. 

Ninguém entende das flores que tentam sobreviver todos os dias em meio ao meu caos. Ou dos passarinhos que fogem das minhas sirenes. Das famílias destroçadas e desejos aniquilados. Estrelas cadentes que deram lugar para bombas. Do cheiro de infância morta naquele uniforme velho. De como minhas pernas ficam fracas mas permanecem em pé porque ainda não quero desistir, porque ainda existe uma pequena parte de mim que acredita na restauração da paz aqui dentro. Essa pequena parte de mim que suspira quando os tiros silenciam e é possível olhar o céu. Uma voz que quase grita por uma liberdade inventada. Mas livre e sincera. Porque por mais que eu viva em guerra sonhos ainda nascem comigo todos os dias, e eu os vejo morrer todas as noites, fracos e tristes. Tenho túmulos para cada um deles. Mas eles ainda nascem e eu ainda acordo. E é por isso que a paz ainda grita no meu peito, uma voz que nem minha própria ditadura pode impedir. É a voz de quem acredita no poder dos sobreviventes, acende velas para os sonhos emoldurados nas paredes e ainda escreve porque acredita que poesia pode superar holocaustos. 

Você sabe o que cada livro lhe conta, mas não aqueles mínimos detalhes e histórias que se perderam entre canhões e espadas, não cada sentimento vivido e suportado. Assim também é conosco. Sempre existe uma guerra cósmica atrás de nossas pupilas, com dores e sonhos tão grandes quanto a vida de alguém. Mas ninguém sabe de nossas guerras internas. Ninguém se comove com elas. E só nos resta sofrer em silêncio e sobreviver a mesma luta todos os dias. E ninguém é covarde ou corajoso por decidir interromper sua guerra antes. São lutas diferentes, todas importantes, nenhuma possível de julgamento. Não por nós. Não sei por quanto tempo aguentarei, é quase como cultivar flores em terras áridas, um dias elas não sobreviverão mais. Mas enquanto elas brotarem, continuarei suportando minha guerra.

Esse texto é em homenagem a quem trava guerras diárias contra si e dentro de si. Por que ninguém jamais entenderá nossas explosões e o quanto elas ardem ou como é difícil forçar um sorriso depois delas. Ou cada lágrima que seguramos pelos nossos sonhos mortos todos os dias sem levantarmos suspeitas. Somos guerreiros, mas ninguém sabe disso. 

09 setembro 2013

Quantas vezes a gente sobrevive a hora da verdade?

Se soubesse como os espinhos ferem minha pele, não me daria essas rosas, mesmo que sua intenção seja enfeitar meus dias. Evitaria abrir as janelas se entendesse que a claridade arde meus olhos. Suas rosas murcharão por falta de luz, e eu não as jogarei fora, embora machucada, gosto de quem me machuca e daquilo que contrasta com a realidade viva. Flores tem o gosto amargo do fim, representa tudo que é mortal, tudo aquilo que um dia foi belo e se esvaiu. Toda a vida que um dia aqui habitou e fugiu. Não me escreveria bilhetes enviados em meio as flores, porque suas palavras manipuladas ferem mais do que as que estão presas em minha garganta. Se soubesse como tudo isso me molesta e enfraquece desistiria de me prender e de todos esses discursos confusos. Como gostaria que compreendesse que meu canto é um pedido de liberdade. Na sua ânsia de não me perder, me prendeu em mim. Entenda, estamos presos e submersos no medo que cultivamos com tanto cuidado sem ao menos perceber. Nossas mãos estiveram unidas por tanto tempo que desaprendemos a andar sozinhos e ficamos cegos pelo medo da solidão. Quem é quebrado nunca poderá completar o outro e nossas promessas são remendos. Todas essas rosas e flores só servem para enfeitar o túmulo do que fomos um dia.

Me liberte. Me devolva. 

05 setembro 2013

Divago demais e você não me entende

Sou capaz de escutar a respiração de cada um de vocês. Isso me irrita. Eu queria um silêncio que não posso  ter, uma paz que não me é concedida, não lido bem com frustrações, e isso me irrita profundamente. Quero gritar, chorar, destruir. Porque o mundo é tão barulhento? A vida é barulhenta demais.

Todos são surdos? Porque o volume da TV está tão alto? Porque eu considero estar em um volume alto demais quando vocês me dizem estar baixo? Não está! Aquelas vozes me confundem. Dói. Irrita. Me dá uma vontade constante de chorar.

Porque ficam se mexendo? Movimentos tem barulhos excessivamente chatos. Me da agonia. Quero matar cada um que me faz escutar sua respiração. Quero que parem de respirar. Não é sempre que consigo escutá-los, mas tem vários momentos que consigo. É a vida debochando de mim, rindo da minha cara, me mostrando como as pessoas estão vivas enquanto eu pareço morte. Um dia talvez eu consiga os silenciar.

Porque essa torneira está pingando? Será que ninguém é capaz de ouvi-la e desligar?

Algo dentro de mim se remexe, inquieto. Uma raiva, uma frustração, lágrimas ameaçam sair. Não são de tristeza. São frutos da minha raiva. Algo aqui dentro parece querer sair, me deixa com uma ansiedade muito grande, mas meu corpo não responde. Continuo deitada. Continuo sem fazer nada além de chorar, coçar minha pele, balançar minha perna.

Nem sempre é assim, agora sou capaz de escutar muitos passarinhos, muitos carros, barulhos de passos, buzinas, vozes, telefones tocando. Não estou irritada com eles. Alguns barulhos eu me acostumei, escuto-os mas nada dentro de mim acorda. São bons momentos. Infelizmente outros sentidos costumam me perturbar então. Agora as luzes parecem fortes demais. Está saindo um sol que machuca meus olhos, faz doer minha cabeça e arder minha pele. Claridade é um pesadelo. Meu medo sempre foi da claridade.

Não gosto de sons que não autorizo que o mundo tenha. Entenda, eu aprecio uma boa música alta quando eu é quem coloco para tocar. Então não se trata de ter barulho, se trata de banir todos os outros barulhos, e ouvir apenas a música, o meu som. Minha música alta é silêncio em meus ouvidos, porque é quando não sou capaz de escutar as outras vidas. Quando nos sentimos mortos, a vida é uma ofensa.


01 setembro 2013

Sobre Pessoas

Algumas pessoas são muito afiadas. Sugadores. Como parasitas, não estão aí para apoiar, mas para quebrar. É de pessoas frágeis que eles se alimentam e criam relações dependentes tão fortes, que o dominado poucas vezes sabe que é dominado. Não é algo que você perceba desde o início, porque sugadores são sutis. Atores da vida. Nem eles sabem quando estão atuando ou não, porque não existem mais. Eles são perfeitos na primeira impressão, por isso duvide dela, perfeição está muito perto da destruição, as vezes são a mesma coisa. Na boca de um sugador, mentiras se vestem de doces coloridos, sorrisos divertidos e vozes afinadas, e será atraente demais para qualquer um, a não ser que você seja um sugador também ou um mero observador. Falarei deles mais tarde.

Começa como uma farpa no dedo. Você sente que a farpa se instala no momento que os conhece. Mas não liga. Finge que é impressão sua, deixa para lá. E essa farpa vai crescendo quase assintomática. Quando ele convence que você é a errada e você se desculpa pelo erro dele, algo dentro de ti emite um aviso, é a farpa. Mas é algo tão rápido que o charme facilmente reconhecível dos sugadores anestesia e você se esquece. Então tudo parece voltar ao normal, porque a sua visão já foi deturpada. E quando ele gasta seu dinheiro você vai achar que era sua obrigação ceder. E se ele não voltar de noite, você vai se culpar por se culpar. E se você tentar conversar vai ser interrompido por diversos argumentos vazios, mas que aos seus ouvidos farão sentido, então novamente cederá. 

Cada sorriso será interpretado como um exagero, e quando você sorrir sentirá a farpa avisando isso. Mas nunca ouvimos. Seu corpo deixará de ser seu. Seus sonhos passarão a ser considerados besteira por você mesmo. É que ele está se alimentando do que você é. Ou do que você era. Sugadores não possuem almas, inventam. Para viver precisam se aproveitar de alguém em relações simbióticas e traumáticas. E essa farpa, que antes parecia quase invisível, irá crescer, e quando você perceber já será uma faca atravessada no seu coração.Eles são transmissíveis também. É um ciclo vicioso, ou ciclo da vida. Seres que já foram sugados costumam virar sugadores. 

Existem quatro tipos de pessoas no mundo: Sugadores, seres para serem sugados, sugadores fracos e observadores. Observadores é provavelmente o que você é. Aquele que percebe o que acontece ao redor mas monta sua muralha invisível e finge que não vê. Sugadores são os protagonistas desse texto. Sugadores fracos são projetos de sugadores que não vingaram. Ou seja, aqueles que foram infectados mas não sobreviveram ou não sobreviverão, porque viver neles mesmos e ter noção do que se é fica insuportável. E a dor é assim, uma hora você acha que pode suportar, até que de repente não pode mais. 

Mas como eu sei de tudo isso? Como posso saber dos truques, quantificá-los e nomeá-los? Fácil. Sou uma sugadora também. Mas faço parte dos fracos.

“Os defeitos mais perigosos são aqueles que, com moderação, se tornam qualidades.”
A Marca de Atena, Rick Riordan

23 agosto 2013

E se foi

Existe emoção no pecado. Existe um certo gozo entre as lágrimas de sangue. A nossa unica ordem é o caos e a dor é o pagamento. Feroz. Veloz. Sepultei-me em mim. Sou meu próprio túmulo, sem rosas e abandonado. Ninguém me encontra mais. Faleci nas ausências, nas tristezas, nas alegrias falsas, nos risos tediosos. Nas crenças. 
O que está acontecendo comigo? No fundo eu sabia que todos possuem um fim. É a lei das coisas. Mas não sabia se havia chegado a minha. A vida tem um cronograma de acontecimentos, um roteiro que nunca recebemos, e nossa missão é fingir nunca sabermos e lutarmos até o fim, seja lá o que for. Talvez morrer não seja tão ruim assim. Eu estava morrendo e não me parecia tão anormal. Mas eis meu segredo: Eu já havia morrido fazia algum tempo. Era uma caixa vazia.



05 agosto 2013

Ausências que me fazem companhia


E quando nada mais parece fazer sentido e o vazio se torna audível, você se permite sentir a tristeza. Ela te conforta, anunciando um fim para os seus problemas, prevendo uma escuridão total em vez de metades de luz. Metades são agoniantes, o eterno sentimento de estar no meio de uma bifurcação e não saber que caminho seguir, dúvidas sempre foram as respostas. Por isso ela se deixava ser tomada pela tristeza, não a temia. Tristeza é como um poema decorado, uma rotina, um vício, quando você se familiariza por ela percebe que ficar triste é um método de fuga. Tristeza é como uma dor muito forte, no começo você sente, mas depois você entra em um estado dissociativo, como se seu próprio corpo estivesse fabricando morfina para aquela dor invisível, então você deixa de sentir. Deixa de sentir a tristeza, mas deixa de sentir também a vida.

É uma droga, essa conformidade, sabe? Um círculo vicioso. Por mais que você fique desesperado, algo lhe repete a mesma ladainha, que nada irá mudar, deixe então a tristeza te levar. E você deixa. Deixa que ela invada seu corpo e abuse dos seus sentidos, lhe faça de boneca de pano, te dobre, estique e espreme. Você não é você. E enquanto esse torpor durar, você estará salva. Porque algumas dores são redenções. E dói tanto que você já não é capaz de sentir mais nada.

Mas isso também é efêmero. As vezes a tristeza se entrelaça com a loucura, a agonia. E de triste você passa a ser também suicida, carente e sacana. E você sente novamente. De uma maneira muito mais forte agora, a falta de sentido deixa de ser um calmante para virar um terror lhe assombrando as entranhas. Há contradição em cada parte do seu corpo, enquanto você se finge de cego. Sentir se torna quase insuportável, e o ceticismo faz sua morada. Sentir é pedir socorro e ao mesmo tempo afastar quem vier ajudá-la a sair do abismo. Somos egoístas, engolimos nossos medos para depois vomitarmos na cara de quem se aproximar.

Sentir é fugir, querendo ficar. É chorar querendo berrar. É xingar com palavras duras achando que são elogios. O meu sentir é incoerente e flerta com a loucura. E aquele vazio que de dia lhe abraçou e protegeu, agora te destrói e dilacera. Assim como você faz com os outros. A dor que você quer infingir muitas vezes é aquela que você sente demais. Então você começa a fugir de si mesmo, ao mesmo tempo que corre para a tormenta. Mas você sabe a verdade o tempo todo, porque embora sua sanidade tenha pulado de um prédio, ela ainda vive. É como a lenda do pássaro com o espinho cravado no peito e segue uma lei imutável pois não há consciência nele do morrer futuro, então limita-se a cantar e a cantar até não lhe sobrar vida para emitir uma única nota. Só que nós, quando enfiamos o espinho no peito, bem sabemos. Compreendemos. E mesmo assim fazemos. 

Existem pessoas que vivem fragmentadas, a emoção, a razão, o saber e a compreensão trabalham de maneira separada. Como máquinas, só que sem ligação ou com uma ligação muito falha. Então quando você se apunha-la, compreende tal ato, mas não é capaz de impedir. Luta com seus demônios sabendo que são partes de você e acaba se atirando no abismo tentando se salvar. 


16 julho 2013

Vivo? Sobrevivo

Você chora, grita, esperneia. Você chora mais por estar chorando. E depois passa, sempre passa. Não, eu não estou falando da tristeza, mas as lágrimas, elas secam sabia? A dor alivia, só fica uma sensação de vazio, de torpor, de vontade de desistir mesmo que você nem tenha começado, de mandar a merda você mesmo e os outros. E o pior é que só você percebe isso. Pode até ficar esperando que alguém te note, te ajude, fuja ou se esconda com você, ou que apareça fatos e pessoas dos livros que você leu nos últimos dias. Mas ninguém percebe, ninguém vem. Você nunca irá aprender? Estamos sozinhos. Sempre estivemos.

04 julho 2013

Quando Dormir Não é Opção

Estou fora de mim. Minha cabeça está girando, meus olhos estão nublados e quase se fechando. Só vejo neblina e claridade. Claridade que me machuca e faz arder ainda mais minha cabeça. Sinto meus olhos doerem e coçarem, mas sei que não se trata de nenhum cisco, é minha visão brincando comigo. Estou pálida, cada vez mais pálida, sinto que estou quase ficando transparente e que logo não restará mais pele para me proteger.

Estou com calor. Um calor estranho e irritante, que vem de dentro e não de fora, como uma febre. É o meu corpo lutando contra mim, eu sou o vírus a ser combatido. Meus pés e mãos estão gelados, a temperatura indica frio, mas porque então eu sinto esse calor? Eu quase posso perceber o calor percorrendo meu corpo, subindo pelo meu pescoço, acariciando minha pele, inchando minha boca, tornando minha pele em tons vermelhos. Meu rosto agora está em chamas, sinto minha cabeça pesada, meu coração parece estar batendo em meus lábios. Mas as extremidades do meu corpo continuam geladas e mais pálidas que o resto, como se o sangue se esquecesse de circular por ali. Coloco minha mão em meu rosto, sinto o choque de algo extremamente gelado em algo muito quente, alivia por pouco tempo.

Vou na frente do espelho, percebo que meu pescoço, ombros e peito estão se tornando da mesma cor que o meu rosto. Como uma alergia observo o vermelho espalhado sobre meus seios. Minha pele se torna quente nas áreas avermelhadas, enquanto o restante está tão gelado quanto gelo. Antigamente, quando eu era criança, todos achavam se tratar de alguma alergia ou gripe, me levavam em consultas mas nada existia. Pararam quando perceberam que minha alergia costumava surgir sempre, sem qualquer motivo, nem ao mesmo nervosismo aparente. Era algo inesperado.

Começou a chover. Fecho os olhos e desejo que essa chuva aumente até virar uma tempestade, e que tenha raios e relâmpagos bonitos. Vou mais além, desejo que seja o fim do mundo, que tudo alague e todos morram. Seria lindo e digno de filme.

Eu preciso dormir, teria que dormir. Mas algo dentro de mim não quer. É a tal febre que está me comandando, e nessas horas eu não posso dormir. Como dormir se seu corpo pega fogo mas está morrendo de frio? Como dormir se quando fecho meus olhos o mundo parece girar?

Descubro, por fim, que não possuo um problema que possa ser nomeado, porque meu problema não é específico. Compreendi já faz um tempo de que faz parte de mim criar um bom drama, e no momento que eu os crio, perco o controle das minhas próprias criações, e o que era invenção, vira subitamente realidade. Como se o fato de pensar já me tornasse culpada. 

Culpada.

27 junho 2013

O Futuro Não é Mais Como Era Antigamente

Pense em como você será daqui cinco anos. Pense em você no futuro, em onde pretende estar, quem pretende ser.

Pensou?

A maioria das pessoas tem respostas para essas perguntas, as vezes são várias suposições e sonhos, em outros casos é um plano já feito há muito tempo. Metas e objetivos. Eu nunca soube responder essas perguntas, e continuo não sabendo. Eu não existo no futuro, sou presente e passado, mas não sou no futuro. Não existo amanhã porque eu apenas consigo sobreviver o hoje. Porque estou ocupada demais tentando manter minha respiração e aparente normalidade. Eu tento com todas as forças imaginar algum futuro, em algum sonho, em finalmente ser adulta algum dia. Mas nunca consigo. É branco, é vazio, não vem nada, não consigo planejar nada porque meus planos acabam no instante que começam. É um ciclo vicioso que nunca fui capaz de romper.

O amanhã não existe para mim. Eu queria que houvessem outros meios, outros sonhos, mas todos os caminhos me levam ao fim, a guilhotina. E em todos eu me vejo resignada, ajoelhando na frente de um carrasco que me aguarda. E esse carrasco sou eu.

Não se enganem. Eu nem sempre pensei assim, embora meus pensamentos fossem pequenos em relação ao futuro, eu os tinha. Eu conseguia fazer planos e tecer um futuro quando eu era criança, o problema é que esse futuro nunca ultrapassava meus 15 anos. E eu já ultrapassei essa idade faz um bom tempo.

Sinto que a realidade está me escapando. Vou contar um segredo, eu possuo um abismo, um infindável abismo e tenho medo de cair nele. Talvez seja por isso que não gosto de olhar para os olhos das outras pessoas. Um abismo se reflete dentro deles. Meu futuro é esse abismo, e sinto que tudo me leva a ele.

Queria possuir alguma esperança, ou vontades, ou expectativas, sinto que as utilizei tanto que se esgotaram e hoje a unica coisa que consigo fazer é imitá-los, nunca são meus. E quando sua vida é uma farsa, é mais proveitoso, para não dizer que é um método de sobrevivência, dormir. Sonhar com a realidade e viver o irreal. O nada.

Meu unico futuro que consigo pensar me persegue. E eu corro dele. Mas é inevitável, um dia me alcançará, porque não existem futuros, não mais, não para mim. Por isso eu não existo no amanhã, porque de alguma forma já morri no ontem. Agora só falta meu carrasco me encontrar. Só espero que meu sangue não espirre em vocês e que a bagunça seja pouca.

08 junho 2013

Gritos de Socorro


Fico me perguntando quando que as pessoas irão perceber que um pedido de socorro vai além de um grito de desespero, podem estar nos sorrisos, nas expressões, e até mesmo nas piadas. Um pedido de socorro pode ser tão silencioso quanto a solidão. Mas existe um ruído, poucas pessoas são capazes de perceberem o que as palavras não traduzem. Tenho medo dessas pessoas porque também sou uma delas e não quero que percebam o quão perdida e precisando de ajuda que estou. Como preciso de algo, de alguém, de um sentido, de uma cura de mim mesma. Tenho ódio e amor por quem me percebe. Quero gritar silenciosamente sem ser incomodada, quero me afundar no abismo que cavei, mas também quero ser salva. É por isso que afasto quem eu amo. É por isso que apenas uma pessoa me restou. Ou me aguentou. 

Minha culpa está em saber, em perceber, em entender o que sou, mas nada fazer para mudar. Meu conhecimento me pressiona e não cansa de implantar questionamentos e discursos sobre tudo. Principalmente sobre mim. Gostaria de não ter aprendido tudo que aprendi, gostaria que minha cabeça se calasse e que meu corpo me obedecesse. Queria ter vontade de algo.

Até hoje ninguém me decifrou. Mas eu já me entendi. Sou apenas uma realidade mais intensa da vida, um universo de sentimentos emaranhados. Mas não se engane, não sou poética, sou um texto mal escrito nas paredes de um banheiro público. Não preciso de análise, já fui analisada por mim mesma demais. Se descobrir não melhora porra nenhuma, já sei o que sou, sou a confusão, a dualidade, o nada, e subitamente, o tudo. 

Minha cor favorita? Todas, ou nenhuma. Meu livro favorito? Muitos, cada dia eu acho um. 

Ser uma incógnita também é resposta. Então aí estou eu: céu, inferno e vazio. 


22 maio 2013

Sobre o Vazio e a Prisão


Imagine viver em uma casa muito apertada, sozinho, um lugar que você se sente desconfortável demais. Agora imagine estar vestindo uma roupa suja, com costuras e etiquetas que ferem sua pele sensível. Imaginou? Então agora imagine você se desesperando, querendo sair desse lugar, batendo nas paredes para ver se alguém escuta, gritando sem ouvir som algum, tentando achar uma porta que não existe. Você se sente sufocado, irritado, com uma agonia constante. Você cansa, desiste e apaga. O tempo passa, mas não passa. Solidão e vozes. Silêncio e gritos. Depois acorda assustado e recomeça todo o desespero de antes ao perceber que está preso para sempre em um lugar que não suporta ficar. E ninguém te escuta.

Conseguiu imaginar? É assim que me sinto todos os dias. Estou presa em mim. Sufocada com um vazio constante. Sou meu pior inimigo e meu único amigo.

Agora eu lhe pergunto: Quanto tempo você duraria nessa prisão que lhe pedi para imaginar? Quanto tempo você suportaria? Não pensaria em explodir tudo, acabar com tudo, desaparecer? 

Então não julgue enquanto me debato com essas mesmas questões, quando tenho o comportamento estranho. Só estou tentando me libertar, da mesma maneira que você estaria. A diferença é que a minha prisão é o meu corpo, é a minha mente. Nasci em um cativeiro e não existem chaves.

Como se libertar se você mesmo é a prisão? Como me livrar de um corpo, um mundo e um lugar que me são estranhos e difíceis de viver? 

Tente me entender, não posso me salvar se na verdade sou o monstro. No jogo da vida eu trapaceei e já estou chegando na final. 

Game Over. 

16 maio 2013

Você é feliz ou finge ser?



Fingir é algo tão comum quanto mentir. E então você se depara com aquele velho clichê "seja você mesmo, não finja...". Como deixar de fingir se eu sou o fingimento? Como ser eu mesma se sou tantas? Vocês me ensinaram a ser assim. Nunca escutei seus ritmos, mas aprendi a dançar a dança. Posso escutar vocês, mas vocês não dizem nada. São só vozes perdidas no espaço, sem nexo, sem propósito, que rebatem na minha alma e caem como cacos de vidros no chão. Os mesmos vidros daqueles pratos que eram quebrados, dos copos jogados ao chão. Daqueles sonhos que já se foram. 

Eu nasci com um problema invisível, ninguém nunca o viu, mas eu sentia. Vim ao mundo rápido demais, prematura. Todos achavam que era vontade de viver, mas era vontade de morrer, de fugir, eu sei. Quando nasci chorando ninguém na época foi capaz de dizer que eu seguiria chorando por um longo tempo, que rejeitaria qualquer contato, que me recusaria a tomar o leite, que recusaria o sono até não poder mais. Chorava tanto que me faltava o ar, minha pele pálida ficava roxa e parecia estar morrendo, nesse momento me contam que apenas com água gelada no meu rosto é que eu saia desse estado. Ninguém foi capaz de ver que eu tinha um problema realmente. Eu nasci fraca, sem proteção, emocionalmente afetada, e qualquer coisa me atingia. É claro que não lembro desses momentos, mas escutei minha querida família repetindo esses fatos milhares de vezes. Minhas lembranças realmente são muito poucas, fragmentadas, confusas, pausas em branco. Talvez porque nunca fui uma só para poder ter lembranças só minhas. 

Comecei a fingir quando fui na minha primeira escola, aos quatro anos. Não foi porque eu queria, mas eram oque ensinavam, e o que não ensinavam eu aprendi copiando. Mas havia brechas, se todos me olhassem, se falassem algo que de alguma maneira me perturbasse, eu chorava. E chorava. E chorava. Até meus pais virem me buscar. Eu queria minha Mãe, mas ela nunca podia, trabalhava demais, então sempre era meu pai que aparecia. Eu não gostava, ele brigava. Eu chorava mais.

Ao longo da minha infância passei boa parte sozinha, fingia qualquer doença ou empecilho para poder não ver ninguém, era extremamente nauseante fingir as vezes. Eu falava sozinha, dava vida aos meus bonecos só para matá-los depois, e assim sucessivamente. Era isso que eu queria fazer com todos.

Cresci. Infelizmente. Fingir quando se é criança era mais fácil e eu tinha 3 amigas. Depois nunca mais tive nenhuma. Comecei a perceber que existia um padrão no comportamento de todos, que existia sempre a repetição das mesmas palavras tolas, as mesmas expressões. Conclui que eles estavam dançando, mas eu não era capaz de escutar a música. Por isso observava e copiava na medida do possível. 

Queria tanto entender o mundo de vocês, a maneira que vivem, a perfeição que se auto projetam e exibem como troféu. Outra coisa que não entendo, como ninguém percebe essas farsas  Cheguei a conclusão que todos são cegos e que só conseguem ver a parte da verdade que mais lhe parecem confortável. Ou nada.

Mas eu vejo tudo. Sempre vi tudo. Escutei tudo. E entendi tudo.
 
E vocês pensavam que não, afinal, eu sabia fingir muito bem. 

Hoje eu cansei, é cansativo tudo isso e a minha mente não me deixa descansar já tem algumas semanas. Eu posso viver sem o mundo exterior enquanto você estiver comigo. Por isso não me diga o sermão de sempre "E seu eu morresse hoje? Como você sobreviveria?". Humanos burros, será meu primeiro pensamento, e daria a minha resposta de sempre "Eu não sobreviveria. Se você morresse hoje, eu morreria amanhã." 

Enquanto a morte não vem, vou fingir mais um pouco isso que todos chamam de vida. Se souber como acabar com o vazio, por favor, me procure.

Com carinho fingido, de alguém que você não conhece, 
Sofia.


18 março 2013

A Morte Vive

Sussurrava "desculpe-me" para a escuridão, esperando que um deus em que não acreditava, surgisse e lhe desse o perdão. Seu pecado? A rendição.


03 março 2013

O Observa Dor


O som que se escuta é de música clássica. O cheiro que se sente é de podridão com mofo e algo mais. Ele desliza lentamente a lâmina da faca pela pele já amarelada e ressecada de sua vítima. Corta com cuidado, e se deleita com o poder que tinha naquele momento, é quase prazer, excitação, mas também calmaria. O corte tem precisão cirúrgica, o sangue não escorre mais, já não se escutam gritos de socorro ou pedidos de piedade. Ele detestava isso. Para que a esperança quando o fim bate na sua cara? Também não existem movimentos, embora alguns espasmos surgissem de vez em quando. "A perfeita vítima", pensou. Um cadáver.

O Começo do Mal

John nasceu em uma cidade do interior. Sua casa, assim como muitas outras, não possuía um pai, nunca o conheceu mas poderia jurar que tinha sua aparência de hoje. John era apenas um erro. E assim como todos os erros, seu pai o enterrou em baixo de uma camada de mentiras e fingiu que ele nunca existiu. John já nasceu um assassino, ou era isso que imaginava, pois no dia de seu nascimento foi o dia que sua mãe começou a morrer. Não foi rápido. Durou 6 anos.

Após o nascimento sua mãe tentou desesperadamente que seu amante a ajudasse, que ficasse com ela e realizasse aquelas promessas de amor. Nunca aconteceu. E com o nascimento do filho indesejado, ele a desprezou como fel amargo, cuspiu seu ódio na cara dela e a acusou de manipuladora, que o filho havia sido algum plano dela, e a expulsou com o xingamento mais comum destinado a todas as mulheres, "vadia". 

Ela pensou em abortar, mas o tempo passou e não fez sua escolha, no fim era tarde demais. Não sentia o bebe, nem emocionalmente. E conforme seu bebe nascia e sua barriga aumentava, sua alma diminuía, como se aquele corpo só pudesse abrigar uma vida.  Sem a ajuda de seu amante ela não tinha como sobreviver, e fez o que sempre fizera desde os 12 anos, vendeu seu corpo, que nunca foi dela. 

John foi o nome que escolheu para seu filho no dia do nascimento. Na verdade não era para o seu filho aquele nome, mas quando o médico perguntou "Que nome gostaria de dar ao seu filho?". Ela respondeu a unica palavra que povoava sua mente há muito tempo "John", o nome do seu amante, do seu salvador e após isso, seu algoz.

Foi uma mãe ausente. Nem sequer lembrava que possuía um bebê na sua casa, não escutava o choro incessante vindo do berço, que continuava até que as vizinhas aparecessem e o alimentassem. John viveu na sujeira boa parte da sua vida. No começo sua mãe chegava a trocar suas fraldas, mantinha a casa com uma certa organização, mas aos poucos foi perdendo a força até que ela se esqueceu que possuía um filho. Mas John não esqueceu que tinha uma mãe. Depois que notou, ainda pequeno, que lágrimas e berros eram inúteis, passou a agir. Comia o que encontrava, limpava como podia e as vezes até recebia ajuda das vizinhas ou dos vários 'pais' que entravam em sua casa a cada noite.

Todo o dia John abraçava sua mãe e pedia por carinho ou comida. Ela o ignorava, dava alguns trocados em sua mão e dizia para ele comprar um doce. John detesta doces desde então.

Dizem que existe dois tipos de pessoas, os observadores, que apenas observam a vida, como uma narradora que conta uma história, sem participar dela. São os mais quietos, não fazem questão de chamar atenção. E os protagonistas, aqueles que agem, aqueles que vivem, que realizam aventuras e descobertas, que não tem medo do desconhecido, que possuem um brilho diferente de excitação no olhar. John era um observador, vou lhes contar o porque: 

Foi ele que viu sua mãe definhar dia após dia, viu a força deixar o corpo daquela mulher que um dia havia sido forte, viu seu corpo ceder ao emocional e adoecer com ela. E podia quase jurar que conseguiu ver quando a vida de sua mãe a deixou totalmente. Foi a unica vez que ela o abraçara, mas quando olhou o rosto pequeno de seu filho algo nela se foi, como algo que começa devagar e de repente acaba repentinamente, um soco dolorido. John havia despertado nela lembranças que mantinha enterradas para que pudesse acordar de manhã e viver o dia. John lembrava seu amante. Desde aquele momento, o pequeno menino percebeu a mudança no olhar da mãe, como se uma sombra se apoderasse dos belos olhos azuis que ela possuía e uma névoa surgisse apagando o brilho da vida. Mas ela continuava de pé, seu coração ainda batia. Demorou alguns anos para que seu corpo acompanhasse o destino de sua alma. A morte.

Continua...

25 fevereiro 2013

Lobos Sedentos


A festa imaginada se seguia.
Risos falsos, Falas falsas
Quem se importaria? 
Lobos em pele de cordeiro
Destroçavam sua carne
Como demônios açougueiros
E quando o sol amanheceu
A festa finalmente acabou
Restou sangue e cheiro podre
Veja o que você se tornou.
Todos sucumbem afinal
Não pela sede do mal
Mas pela pressa de fugir
Vagar inexistente, sumir.
Veja bem leitor
Os lobos somos nós 
E você sabe 
Pode continuar fingindo, feliz
Mas jamais fugir de si.

Eles estão vindo.


(P.S: Não ligo para o formato da poesia (ou poema), então vai deliciosamente à merda se for reclamar da estrutura do poema. Críticas quanto ao conteúdo são bem vindas. )

O Monstro

Ela se perguntou tanto o que devia fazer, que no fim, acabou não fazendo nada. Sua vida sempre fora de perguntas, raramente de respostas, e na dúvida permanecia no seu estado de letargia, alheia, como se esperasse algo ou alguém, mesmo sabendo que nada mudaria se ela não mudasse. Era uma sem teto que não movia um dedo para procurar abrigo, suas mágoas e frustrações a aqueciam, sua dor a mantinha viva, suas lágrimas lhe davam do que beber e suas perguntas lhe mantinham vivas. Ainda.

A estabilidade do cinza. O doce momento do meio de uma encruzilhada. O momento da escolha nunca feita. O gosto das possibilidades lhe tocando de leve mas nunca a consumindo. Era um livro em branco e não possuía criatividade suficiente para preenchê-lo. Se deliciava com o 'talvez'. Colocava sal nas feridas quando pareciam cicatrizadas e ainda buscava ajuda em quem nunca a ajudara. Talvez porque soubesse que seria negada, talvez porque quisesse permanecer no vácuo de uma vida. 

Dentro dela, achando que estava adormecido, havia seu monstro, e ela o sentia. Sabia que o herdara no instante que nascera, e talvez gostasse de ficar parada porque assim seu monstro não teria com o que se alimentar, permaneceria inerte com ela, se fingindo de morto. 

Mal sabia que seu monstro sempre estivera acordado. Era sua alma que dormia.

Quem lhe regia sempre foi o monstro e ele se alimentava no inócuo, do vazio. Monstros não são tão óbvios, não é sangue que eles querem, é a sua falta de vontade de mudar, sua falta de sentimentos reais, a falta de esperança os alimenta mais que a própria raiva.

Seu monstro também está a espreita. Você pode ter tido sorte até agora, ou pior, pode achar que é você que comanda seus atos e emoções, quando na verdade é apenas um robô do mal que lhe habita.


19 fevereiro 2013

Da verdade escondida

Somos prisioneiros de nós mesmos e essa sempre será grande luta, uma liberdade que talvez nunca exista. Os seres humanos nasceram corrompidos e nossas crenças serão nossos túmulos. 

Uma vida fragmentada
É que a lucidez, meu amigo,
só anda embriagada.