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12 fevereiro 2015

Mas acontece que algumas pessoas não podem ser consertadas

Venço uma etapa pra despencar poucos segundos depois. Sinto que sempre estou chegando perto da beira da praia, e no ultimo instante, tudo desaparece e fico sozinha no oceano. Sozinha. E na minha procura enlouquecida pelo próximo cais eu me apego em pessoas pelo caminho, faço delas a minha boia, sugo delas tudo que eu posso porque eu não sei viver sem me ver refletida nos olhos dos outros. E não é qualquer reflexo, eu quero a aprovação contínua. Quero que me amem e necessitem de mim como eu necessito de cada pedacinho de qualquer pessoa. Achei que não era assim( diga-se de passagem, com transtorno de personalidade), que não era sugadora. Mas sou. Vocês estavam certos, precisei sair do meu casulo pra perceber isso. Precisei ir pro mundo real pra me ver realmente. E doeu. E dói. Eu observo cada um de vocês, visto suas máscaras, e faço o que vocês fazem. Mas sou como uma coadjuvante observadora, e apenas isso.

Eu minto. Você odeia mentiras e aprecia a sinceridade. Mas eu minto a cada momento em que estou viva. Minto aquele sorriso quando você acorda do meu lado. Minto que acho engraçado suas piadas. Minto que não penso em cada instante que tem do meu dia em você simplesmente porque você me falou que viria. Minto quando falo que acordei faz pouco tempo, quando na verdade tomei um coquetel de remédios pra tentar ser normal, tomei vários banhos e tentei parecer o menos repugnante possível pra você me suportar. Minto quando digo que são ferimentos de alergia, de gilete, sem querer. Minto quando digo pra você que quero o controle, que prefiro ficar por cima, que não gosto quando você me marca. Eu quero ser marcada, quero que você vá o mais rápido que puder, que não se importe que me doa, porque eu quero a dor, eu preciso dela. Minto quando digo que não quero nada sério, que é só sexo. Eu quero algo sério. Mas nunca poderemos, porque não sou convencional, porque as vezes eu quero que você me coma 10 vezes, e outras eu quero te chutar pra fora do quarto antes da primeira chupada. Porque eu suporto normalmente que você olhe outras gurias, aprecie elas como eu aprecio, mas detesto que esqueça de me responder uma mensagem. E não podemos ficar juntos porque eu te amo, mas te amo agora e só, entende? Te amo agora porque você me deu atenção, mas não vou te amar amanhã porque você não conseguiria manter essa atenção por tanto tempo.

Não podemos ficar juntos porque eu minto descaradamente pra viver. E você é sincero desesperadamente pra sobreviver. E dois opostos não se amam, se anulam. Eu quero você, mas terei sugado tudo que você pode me dar em poucos dias. E logo ficará óbvio demais. E já é claro o suficiente que te escolhi porque você pode oferecer a dor que preciso, a de ser ignorada, de ser anulada. Percebi seu problema, oposto ao meu, antes que você me percebesse, e te escolhi, e você fugirá como os outros. Ninguém suporta minhas verdades.

Sozinha.

07 janeiro 2015

Sobre Mudanças

Faz tempo que não publico nada aqui, na verdade é porque quis esquecer essa pessoa que escrevia esses textos, quis retirar boa parte dessa realidade que tive comigo por tantos anos e tentei me dedicar a ser diferente, a viver coisas novas ou apenas viver de novo.
Então qual o motivo que me fez voltar a escrever? Percebi que nunca irei me desligar dessa estranha tão conhecida que passou por tudo que escreveu aqui, e que mesmo estando diferente eu ainda sinto boa parte do que sempre senti. Mudei sim, tudo ao meu redor mudou, e tenho que fingir constantemente ser alguém que não sou porque no mundo real pessoas como eu não são aceitas. E eu finjo. Nem sempre sou bem sucedida, mas estou sobrevivendo no mundo caótico e comum de todos. Meus monstros continuam comigo, e eu sei que continuo lutando coisas que ninguém que está aqui perto compreende. Desabafar com conhecidos não é uma escolha, porque já a fiz e não deu certo. Escolho então prosseguir e decido ser quem eu realmente sou apenas com quem me der muita confiança ou abrir a minha loucura o suficiente para conseguir tal façanha.

27 março 2014

Tempestades

Meu cérebro chove. Sinto cada palavra rebater na minha pele como uma tempestade de ameças já ditas. Eu vejo você mas você não me vê, sou outra pessoa para você agora, alguém que merece escutar o que tem para dizer. Sinto que quer mais que vingança e que minhas palavras chegarão deturpadas aos seus ouvidos. Então me calo e choro. Minhas lágrimas nunca tiveram timidez ao seu lado, mesmo com as ameaças constantes, isso só as fazem mais fortes. Parar de respirar não seria uma má ideia agora, penso, enquanto palavras retumbam ao fundo. Meu ar se torna rarefeito porque você sempre teve esse poder sobre mim, e sobre o universo inteiro ao meu redor. Não entendo o que você me diz, qual realidade estamos falando? Repito um mantra que nunca deu certo "vá embora, não encoste em mim, vá embora, me deixe em paz", enquanto meu cérebro se liquefaz e meu corpo arde.

"A dramática é você" e "Você está inventando muita coisa" escuto você dizer. Suas palavras ecoam dentro de mim  "mentirosa, mentirosa, mentirosa, mentirosa" confirmando que sou oca como sempre suspeitei. Queria que você tivesse matado nossa família como suas ameaças prometiam. Não queria ter esse pensamento agora. Você abaixa os braços acusativos por alguns instantes e seus olhos relaxam, sua expressão parece confusa e depois de alguns segundos escuto você dizer "Me abraça filha?", agora voltei a ser a sua amada filha, mas não quero seu abraço, quero uma paz que você nunca irá me conceder.

Você sai do meu quarto finalmente, e o silêncio que vem em seguida é um dos poemas mais lindos já feitos. Eu fugi naquele dia, você também, da sua maneira. Eu tentei conversar contigo mas você já fez a sua verdade e extinguiu a minha. Escrevi dois textos gigantes sobre o que eu sempre senti e você não passou da segunda frase.

Tenho pensando em escrever cartas de despedidas porque estou evaporando em cada palavra não dita, e minha realidade parece diferente demais da realidade comum a todos para que agora, de uma hora para outra, eu volte a vida normal. Meu sorriso é de mentira. Meus sonhos são uma ilusão, mas os alimento diariamente para que eu não morra de fome.

15 dezembro 2013

Concerto, Conserto e Demônios

O que ando fazendo? Conserto. Concerto. Uma sinfonia enquanto tento restaurar meus pedaços. Meu pequeno show para platéia alguma, embora as vezes eu possa jurar ouvir os aplausos. Costuro e me refaço, me desfazendo mais de vez em quando. 
Sei que sou um quebra cabeças com peças que faltam, que jamais encontrarei, mas preciso me acabar, me inventar, reinventar. Estou tentando as pazes comigo, com meu corpo, minhas ideias. Passei tanta tempo perto do precipício e flertando com a queda que minhas asas adormeceram, mas hoje sei que as possuo. A visão do despenhadeiro ainda brilha no fundo dos meus olhos, mas consigo olhar as nuvens agora, e além. Contemplei a ideia de um mergulho vívido que esqueci da ideia de voar. Então agora conserto essa ideia com linhas de algodão e passos lentos. O Demônio da Perversidade de Edgar Allan Poe é real, e ainda me tenta, mas ao contrário do que sempre fiz, não o contemplo extasiada, mas o convido para o meu concerto, minha dança e o esculpo em minhas asas adormecidas enquanto o tempo passa. 
Ainda sou uma criança impertinente e assustada. Mas que um dia irá voar além da metáfora.

17 novembro 2013

Somos Feitos de Sentimentos

Minha prosa está cessando dentro de mim. As dores que me fazem companhia permanecem, mas não servem de inspiração, calaram-se. Refugiaram-se. As expectativas de um futuro diferente são fracas demais para virar texto, ainda tenho que cultivá-las todo dia, e sinto-as quase que inexistentes, mas estão ali, talvez o tédio de permanecer no mesmo tenha ajudado a adubá-las. Consegui ter alguns momentos felizes e livres, que há muito não tinha, mas era perceptível o quão efêmero tais momentos eram, e como eu me agarrava a eles até sumirem por completo. Já dizia Nietzsche que é assim que se percebe um ser humano de profunda tristeza, porque se denunciam quando estão felizes, e às agarram e esmagam, por ciúme ou saudade antes do tempo, pois sabem muito bem como ela escapa. Virei um clichê dos séculos passados com um discurso bonito e futurista.




01 outubro 2013

Guerras Íntimas


Mas ninguém sabe das minhas guerras. Das batalhas intermináveis que insistem aqui dentro. Nem todos os olhos são espelhos da alma, os meus são enganosos, as vezes acredito serem da oposição. Você pode acreditar ver uma alegria genuína neles, mas se não prestares bem atenção não poderás escutar as bombas que explodem dentro da minha alma, e das granadas que estouram em silêncio enquanto solto a respiração. Ninguém sabe que em dias de guerra Renato Russo jamais esteve tão certo ao proferir que cada estrela parecerá uma lágrima. Meus sonhos são mortos pelo gatilho e ouço os estilhaços caírem ao chão. Tento esconder o conflito e instaurar a paz, mas nem sempre é possível, e sempre é exaustivo. É triste lutar em uma guerra obrigada, onde você sabe que não saíra vencedores. Só vencidos.

Tento que minha guerra não atinja pessoas inocentes, mas elas são pegas as vezes, e sinto o peso de cada uma delas a me afogar. Uma alma pesa bastante sabe? Um momento perdido, por mais que sejam só alguns momentos, me pesam demais. Ninguém nunca se acha em combates afinal querido, só se perde. Entenda agora o porque mal nos encontramos e já estamos nos perdemos. Essa é minha guerra. 

Ninguém entende das flores que tentam sobreviver todos os dias em meio ao meu caos. Ou dos passarinhos que fogem das minhas sirenes. Das famílias destroçadas e desejos aniquilados. Estrelas cadentes que deram lugar para bombas. Do cheiro de infância morta naquele uniforme velho. De como minhas pernas ficam fracas mas permanecem em pé porque ainda não quero desistir, porque ainda existe uma pequena parte de mim que acredita na restauração da paz aqui dentro. Essa pequena parte de mim que suspira quando os tiros silenciam e é possível olhar o céu. Uma voz que quase grita por uma liberdade inventada. Mas livre e sincera. Porque por mais que eu viva em guerra sonhos ainda nascem comigo todos os dias, e eu os vejo morrer todas as noites, fracos e tristes. Tenho túmulos para cada um deles. Mas eles ainda nascem e eu ainda acordo. E é por isso que a paz ainda grita no meu peito, uma voz que nem minha própria ditadura pode impedir. É a voz de quem acredita no poder dos sobreviventes, acende velas para os sonhos emoldurados nas paredes e ainda escreve porque acredita que poesia pode superar holocaustos. 

Você sabe o que cada livro lhe conta, mas não aqueles mínimos detalhes e histórias que se perderam entre canhões e espadas, não cada sentimento vivido e suportado. Assim também é conosco. Sempre existe uma guerra cósmica atrás de nossas pupilas, com dores e sonhos tão grandes quanto a vida de alguém. Mas ninguém sabe de nossas guerras internas. Ninguém se comove com elas. E só nos resta sofrer em silêncio e sobreviver a mesma luta todos os dias. E ninguém é covarde ou corajoso por decidir interromper sua guerra antes. São lutas diferentes, todas importantes, nenhuma possível de julgamento. Não por nós. Não sei por quanto tempo aguentarei, é quase como cultivar flores em terras áridas, um dias elas não sobreviverão mais. Mas enquanto elas brotarem, continuarei suportando minha guerra.

Esse texto é em homenagem a quem trava guerras diárias contra si e dentro de si. Por que ninguém jamais entenderá nossas explosões e o quanto elas ardem ou como é difícil forçar um sorriso depois delas. Ou cada lágrima que seguramos pelos nossos sonhos mortos todos os dias sem levantarmos suspeitas. Somos guerreiros, mas ninguém sabe disso. 

E o Inferno Somos Nós

Meus dedos ardem. Minhas mãos tremem. Meus pensamentos voam. E eu sobrevivo. Respiro novamente o ar da manhã tentando lembrar em que dia estamos, ou mês, ou ano. Quais são meus planos? Não sei mais nadar nessa lama, e a cada passo eu afundo mais. Criamos mundos sem portas ou janelas para nos protegermos e ficamos presos em nós mesmos. É o mal do século. Presos e submersos no medo. E o mundo ficará assim, completo de seres incompletos, procurando no outro seu pedaço irrecuperável. Igualzinho a nós dois. Vivendo na beira do abismo, esperando do outro o empurrão fatal. 


08 setembro 2013

Redenção

Solto minha respiração enquanto a lâmina faz sua dança pela minha carne. Como por instinto, levo o corte a minha boca e o gosto férreo abraça minha língua. Fecho meus olhos e desfruto o momento da minha redenção. Estou salva e pura nesses poucos segundos, enquanto o sangue escorrer. Sinto a queimação posterior atingir meus sentidos e me deleito na paz que a dor me trás. Não vou mentir, foi tudo planejado. Como um velho ritual, uma conversa conhecida. Velhos amigos.
Na ânsia de não existir a existência me atingiu. Senti minha pulsação novamente e meu corpo parece subitamente apenas meu. Enquanto o sangue escorre sinto minhas angústias sendo expulsas. Eu que sempre estou fria, sinto agora a febre dos que vivem.
Deslizo até o chão que me parece feito de plumas agora. Meu corpo repousa. Estou viva, enfim. Ainda que por pouco tempo. Aproveito meus últimos minutos enquanto lágrimas mornas escorrem dos meus olhos. Estou viva. E eu sorrio.

23 agosto 2013

E se foi

Existe emoção no pecado. Existe um certo gozo entre as lágrimas de sangue. A nossa unica ordem é o caos e a dor é o pagamento. Feroz. Veloz. Sepultei-me em mim. Sou meu próprio túmulo, sem rosas e abandonado. Ninguém me encontra mais. Faleci nas ausências, nas tristezas, nas alegrias falsas, nos risos tediosos. Nas crenças. 
O que está acontecendo comigo? No fundo eu sabia que todos possuem um fim. É a lei das coisas. Mas não sabia se havia chegado a minha. A vida tem um cronograma de acontecimentos, um roteiro que nunca recebemos, e nossa missão é fingir nunca sabermos e lutarmos até o fim, seja lá o que for. Talvez morrer não seja tão ruim assim. Eu estava morrendo e não me parecia tão anormal. Mas eis meu segredo: Eu já havia morrido fazia algum tempo. Era uma caixa vazia.



05 agosto 2013

Desisti de Ser Humano

Então você percebe como o ser humano é um bicho estranho. Sempre procurando um amor infinito, uma alegria interminável, uma ilusão possível, um sentido para o nada. Logo ele, capaz de morrer no próximo minuto. Desistências moram nas esquinas, sonhos sobrevoam o ar sem ninguém os tocar. Fracos diante do primeiro abalo, sujeitos a sucumbir a qualquer força da natureza. A segurança não existe. Nós inventamos.

E a cada dia que amanhece inventamos uma mentira linda. Vestimos nossa vestimenta sociável. Nos escondemos no manto da falsidade. Isso é ser humano. Mas tem aqueles que não conseguem seguir esses parâmetros  aqueles em que a mentira fica óbvia demais e a falsidade é muito perceptível. Aqueles que percebem o que não deveriam perceber. Toda essa efemeridade, essa busca total por algum sentido que nunca chegará ao fim, quem não acredita na mentira, padece.

Há também aquela eterna barganha. Aquela procrastinação enfeitada de promessas. Pesadelos coloridos com papel crepom. É a lei do mais forte, mesmo que de maneira subjetiva. Justo nós, que nos vangloriamos por sermos seres civilizados, racionais, mas que em frente a qualquer ameaça mostramos a face da nossa besta selvagem interior. 

Tudo se baseia na troca, é preciso ter uma boa moeda para negociação. Nossa luta bestial acontece de maneira abstrata. Quem não seguir as regras é excluído. Prisões, hospitais, asilos e suicídios estão aí para comprovar o que digo. Só que todas as regras são superficiais, ilusões de condicionamento, e acredite, os mais perigosos defeitos são aqueles que com moderação se tornam qualidades apreciadas. A mentira concorda. 

E a cada dia que passa percebo que meu lugar não é esse...

16 julho 2013

Viver Não Tem Cura

Gostaria de poder dizer que sinto falta de todos vocês. Mas não sinto. Percebi isso semana passada, começou com um frio no estômago, depois lágrimas e gritos. Tudo que antes fazia sentido, se desfez como cacos de uma realidade inventada. Tudo que antes sempre desejei, morreu. E eu posso quase jurar que percebi o instante da morte, e eu queria poder explicar, queria poder transformar em palavras a minha agonia, mas elas sumiam na minha garganta, era como se eu gritasse para dentro e só eu era capaz de ouvir. Quase não aguentei, ainda sinto os ecos dos meus gritos mudos. Tudo perdeu o sentido e foi um misto de felicidade e tristeza quando percebi que não quero suas meias verdades, meios abraços, meios sorrisos. Essa falsidade toda pintada de verdade. Essa busca incessante de coisa alguma. Essa espera, que ninguém sabe do quê, mas espera. 

Eu sei que você não está entendendo. Nem deveria. Mas deixe-me pintar um quadro mais claro. Pense que tudo o que você jurava ser verdadeiro, de repente não era mais, que todas aquelas pessoas que você pensava que existiam, na verdade não passava de imaginação. Que o sólido se tornou líquido e o denso se tornou palpável. E então você cruza uma linha invisível, e tudo que era colorido de repente vira preto e branco. Não existem mais propósitos, nem objetivos ou sonhos. Não existe mais caminho para seguir, não existe mais nada além do vazio da sua existência. E tudo isso que você está sentindo não é controlável, embora todos jurem que é. Conseguiu sentir agora? É como um câncer que preserva seu corpo e mata sua alma, e no funeral ainda será capaz de escutar as risadas de quem acha que você não sofreu, que você não lutou ou o mais clichê, que foi egoísta e desistiu. Julgamentos de quem teme ser também julgado. É disso que estou cansada, dessa pseudo moralidade e senso de normalidade escrota que todos pregam em suas portas.

Não que a culpa seja do mundo. Não os culpo. Mas também estou absolvida desses pecados porque não existem culpados, só vítimas.

27 junho 2013

O Futuro Não é Mais Como Era Antigamente

Pense em como você será daqui cinco anos. Pense em você no futuro, em onde pretende estar, quem pretende ser.

Pensou?

A maioria das pessoas tem respostas para essas perguntas, as vezes são várias suposições e sonhos, em outros casos é um plano já feito há muito tempo. Metas e objetivos. Eu nunca soube responder essas perguntas, e continuo não sabendo. Eu não existo no futuro, sou presente e passado, mas não sou no futuro. Não existo amanhã porque eu apenas consigo sobreviver o hoje. Porque estou ocupada demais tentando manter minha respiração e aparente normalidade. Eu tento com todas as forças imaginar algum futuro, em algum sonho, em finalmente ser adulta algum dia. Mas nunca consigo. É branco, é vazio, não vem nada, não consigo planejar nada porque meus planos acabam no instante que começam. É um ciclo vicioso que nunca fui capaz de romper.

O amanhã não existe para mim. Eu queria que houvessem outros meios, outros sonhos, mas todos os caminhos me levam ao fim, a guilhotina. E em todos eu me vejo resignada, ajoelhando na frente de um carrasco que me aguarda. E esse carrasco sou eu.

Não se enganem. Eu nem sempre pensei assim, embora meus pensamentos fossem pequenos em relação ao futuro, eu os tinha. Eu conseguia fazer planos e tecer um futuro quando eu era criança, o problema é que esse futuro nunca ultrapassava meus 15 anos. E eu já ultrapassei essa idade faz um bom tempo.

Sinto que a realidade está me escapando. Vou contar um segredo, eu possuo um abismo, um infindável abismo e tenho medo de cair nele. Talvez seja por isso que não gosto de olhar para os olhos das outras pessoas. Um abismo se reflete dentro deles. Meu futuro é esse abismo, e sinto que tudo me leva a ele.

Queria possuir alguma esperança, ou vontades, ou expectativas, sinto que as utilizei tanto que se esgotaram e hoje a unica coisa que consigo fazer é imitá-los, nunca são meus. E quando sua vida é uma farsa, é mais proveitoso, para não dizer que é um método de sobrevivência, dormir. Sonhar com a realidade e viver o irreal. O nada.

Meu unico futuro que consigo pensar me persegue. E eu corro dele. Mas é inevitável, um dia me alcançará, porque não existem futuros, não mais, não para mim. Por isso eu não existo no amanhã, porque de alguma forma já morri no ontem. Agora só falta meu carrasco me encontrar. Só espero que meu sangue não espirre em vocês e que a bagunça seja pouca.

08 junho 2013

Gritos de Socorro


Fico me perguntando quando que as pessoas irão perceber que um pedido de socorro vai além de um grito de desespero, podem estar nos sorrisos, nas expressões, e até mesmo nas piadas. Um pedido de socorro pode ser tão silencioso quanto a solidão. Mas existe um ruído, poucas pessoas são capazes de perceberem o que as palavras não traduzem. Tenho medo dessas pessoas porque também sou uma delas e não quero que percebam o quão perdida e precisando de ajuda que estou. Como preciso de algo, de alguém, de um sentido, de uma cura de mim mesma. Tenho ódio e amor por quem me percebe. Quero gritar silenciosamente sem ser incomodada, quero me afundar no abismo que cavei, mas também quero ser salva. É por isso que afasto quem eu amo. É por isso que apenas uma pessoa me restou. Ou me aguentou. 

Minha culpa está em saber, em perceber, em entender o que sou, mas nada fazer para mudar. Meu conhecimento me pressiona e não cansa de implantar questionamentos e discursos sobre tudo. Principalmente sobre mim. Gostaria de não ter aprendido tudo que aprendi, gostaria que minha cabeça se calasse e que meu corpo me obedecesse. Queria ter vontade de algo.

Até hoje ninguém me decifrou. Mas eu já me entendi. Sou apenas uma realidade mais intensa da vida, um universo de sentimentos emaranhados. Mas não se engane, não sou poética, sou um texto mal escrito nas paredes de um banheiro público. Não preciso de análise, já fui analisada por mim mesma demais. Se descobrir não melhora porra nenhuma, já sei o que sou, sou a confusão, a dualidade, o nada, e subitamente, o tudo. 

Minha cor favorita? Todas, ou nenhuma. Meu livro favorito? Muitos, cada dia eu acho um. 

Ser uma incógnita também é resposta. Então aí estou eu: céu, inferno e vazio. 


22 maio 2013

Sobre o Vazio e a Prisão


Imagine viver em uma casa muito apertada, sozinho, um lugar que você se sente desconfortável demais. Agora imagine estar vestindo uma roupa suja, com costuras e etiquetas que ferem sua pele sensível. Imaginou? Então agora imagine você se desesperando, querendo sair desse lugar, batendo nas paredes para ver se alguém escuta, gritando sem ouvir som algum, tentando achar uma porta que não existe. Você se sente sufocado, irritado, com uma agonia constante. Você cansa, desiste e apaga. O tempo passa, mas não passa. Solidão e vozes. Silêncio e gritos. Depois acorda assustado e recomeça todo o desespero de antes ao perceber que está preso para sempre em um lugar que não suporta ficar. E ninguém te escuta.

Conseguiu imaginar? É assim que me sinto todos os dias. Estou presa em mim. Sufocada com um vazio constante. Sou meu pior inimigo e meu único amigo.

Agora eu lhe pergunto: Quanto tempo você duraria nessa prisão que lhe pedi para imaginar? Quanto tempo você suportaria? Não pensaria em explodir tudo, acabar com tudo, desaparecer? 

Então não julgue enquanto me debato com essas mesmas questões, quando tenho o comportamento estranho. Só estou tentando me libertar, da mesma maneira que você estaria. A diferença é que a minha prisão é o meu corpo, é a minha mente. Nasci em um cativeiro e não existem chaves.

Como se libertar se você mesmo é a prisão? Como me livrar de um corpo, um mundo e um lugar que me são estranhos e difíceis de viver? 

Tente me entender, não posso me salvar se na verdade sou o monstro. No jogo da vida eu trapaceei e já estou chegando na final. 

Game Over. 

16 maio 2013

Você é feliz ou finge ser?



Fingir é algo tão comum quanto mentir. E então você se depara com aquele velho clichê "seja você mesmo, não finja...". Como deixar de fingir se eu sou o fingimento? Como ser eu mesma se sou tantas? Vocês me ensinaram a ser assim. Nunca escutei seus ritmos, mas aprendi a dançar a dança. Posso escutar vocês, mas vocês não dizem nada. São só vozes perdidas no espaço, sem nexo, sem propósito, que rebatem na minha alma e caem como cacos de vidros no chão. Os mesmos vidros daqueles pratos que eram quebrados, dos copos jogados ao chão. Daqueles sonhos que já se foram. 

Eu nasci com um problema invisível, ninguém nunca o viu, mas eu sentia. Vim ao mundo rápido demais, prematura. Todos achavam que era vontade de viver, mas era vontade de morrer, de fugir, eu sei. Quando nasci chorando ninguém na época foi capaz de dizer que eu seguiria chorando por um longo tempo, que rejeitaria qualquer contato, que me recusaria a tomar o leite, que recusaria o sono até não poder mais. Chorava tanto que me faltava o ar, minha pele pálida ficava roxa e parecia estar morrendo, nesse momento me contam que apenas com água gelada no meu rosto é que eu saia desse estado. Ninguém foi capaz de ver que eu tinha um problema realmente. Eu nasci fraca, sem proteção, emocionalmente afetada, e qualquer coisa me atingia. É claro que não lembro desses momentos, mas escutei minha querida família repetindo esses fatos milhares de vezes. Minhas lembranças realmente são muito poucas, fragmentadas, confusas, pausas em branco. Talvez porque nunca fui uma só para poder ter lembranças só minhas. 

Comecei a fingir quando fui na minha primeira escola, aos quatro anos. Não foi porque eu queria, mas eram oque ensinavam, e o que não ensinavam eu aprendi copiando. Mas havia brechas, se todos me olhassem, se falassem algo que de alguma maneira me perturbasse, eu chorava. E chorava. E chorava. Até meus pais virem me buscar. Eu queria minha Mãe, mas ela nunca podia, trabalhava demais, então sempre era meu pai que aparecia. Eu não gostava, ele brigava. Eu chorava mais.

Ao longo da minha infância passei boa parte sozinha, fingia qualquer doença ou empecilho para poder não ver ninguém, era extremamente nauseante fingir as vezes. Eu falava sozinha, dava vida aos meus bonecos só para matá-los depois, e assim sucessivamente. Era isso que eu queria fazer com todos.

Cresci. Infelizmente. Fingir quando se é criança era mais fácil e eu tinha 3 amigas. Depois nunca mais tive nenhuma. Comecei a perceber que existia um padrão no comportamento de todos, que existia sempre a repetição das mesmas palavras tolas, as mesmas expressões. Conclui que eles estavam dançando, mas eu não era capaz de escutar a música. Por isso observava e copiava na medida do possível. 

Queria tanto entender o mundo de vocês, a maneira que vivem, a perfeição que se auto projetam e exibem como troféu. Outra coisa que não entendo, como ninguém percebe essas farsas  Cheguei a conclusão que todos são cegos e que só conseguem ver a parte da verdade que mais lhe parecem confortável. Ou nada.

Mas eu vejo tudo. Sempre vi tudo. Escutei tudo. E entendi tudo.
 
E vocês pensavam que não, afinal, eu sabia fingir muito bem. 

Hoje eu cansei, é cansativo tudo isso e a minha mente não me deixa descansar já tem algumas semanas. Eu posso viver sem o mundo exterior enquanto você estiver comigo. Por isso não me diga o sermão de sempre "E seu eu morresse hoje? Como você sobreviveria?". Humanos burros, será meu primeiro pensamento, e daria a minha resposta de sempre "Eu não sobreviveria. Se você morresse hoje, eu morreria amanhã." 

Enquanto a morte não vem, vou fingir mais um pouco isso que todos chamam de vida. Se souber como acabar com o vazio, por favor, me procure.

Com carinho fingido, de alguém que você não conhece, 
Sofia.


28 março 2013

Inventando e Destruindo

Agora estou inventando personagens para viver comigo. Não sei mais distinguir quem é real de quem não é. Um dia eu fui boa em julgar, em fugir, em perceber as coisas. Hoje não sou mais. Choro pelo imaginário, desejo sonhos loucos com pessoas loucas que eu sei que não se importam comigo. Minha melhor fantasia é aquela de deitar em baixo das cobertas e repetir diversas vezes que o mundo não existe. Que nada existe. Que eu não existo. E depois, murmurar desculpas para outro ser imaginário, pela pessoa que eu sou, por sentir o que sinto, por agir assim. Eu não espero respostas, então só repito, como um disco quebrado: "Me desculpa, desculpa, eu queria ser diferente, desculpa, desculpa, me perdoa, eu não sou uma pessoa ruim, desculpa..." E assim segue minhas palavras que ninguém nunca escutou, até que não consigo mais falar, até que as lágrimas sequem e o sono me embale. 

Outras vezes eu brinco de amor, de vida. Que existe alguém que se importa, só que não sei mais se essa pessoa realmente existe porque ela está parando de me responder, tá agonizando nas suas dores, que são as minhas, tá desaparecendo como uma doce ilusão. Mas eu ainda brinco, ainda não permito que ela se vá, sou egoísta e não posso mais sofrer sozinha. Essa pessoa, real ou não, entende. Mas acho que não terei mais forças para segurar essa imaginação de amizade e amor, então ela está morrendo, me deixando, como todo mundo que conheci. Mas eu não culpo ninguém. Nem quem me fez chorar, quem me assustou, quem desapareceu, quem me julgou. Eu não sinto nada e admito minha culpa.

Então vou deixar que minha personagem se vá, porque eu não posso nem me segurar, quanto mais tudo isso. É uma corda bamba entende? Vamos cair. Eu assumo esse risco, mas ninguém ainda assumiu esse risco comigo. Ainda vou chorar por outro mundo que imaginei e que se desfez, tenho uma coleção deles agora sabia? São milhares de pedaços, rasgados, destroçados, perdidos, de sonhos que nunca aconteceram. Sou uma colecionadora de decepções, pego até as dores que não são minhas. Não sei mais quem eu sou, qual é a minha história. Eu poderia me dopar de remédios para tudo passar, mas eu já fiz isso e nunca passou. 

Não sinto vontade de fazer tentativas. De correr o risco de sair da prisão em que me enclausurei. Joguei as chaves fora e fiquei presa em mim. Ninguém tentou me libertar, ninguém conseguiu subir meus muros e me resgatar. Desistem de mim ou deles próprios. 

Meu personagem vira pó e da risada da minha cara. Eu sorrio de volta e abraço o vazio.

23 março 2013

Não me de conselhos, sei errar sozinho.

- Você é um bebê que quer desesperadamente voltar para o útero da sua mãe. Não pode ter amigos nem vínculos porque você é uma pessoa vazia e relações se trata de uma troca, o que você tem a oferecer? Nada. Você só sabe sugar, depende da aprovação dos outros, depende que outras pessoas te digam o que fazer, e exaltem seu amor. Dependente e sugadora. Não possui auto estima suficiente, só vazio, e precisa prejudicar e sugar das pessoas ao redor, e quando não existe mais ninguém você desmorona como um castelo de cartas. Se você se alimenta de algo e necessita disso para viver, quando acaba a comida o que pode acontecer? Cansaço, depressão, sono constante, pulos no tempo, até que não existe mais nada e fim. E você fará o que agora? Vai escolher definhar? Vai desistir de novo? Você pode se curar, mas não quer.

Essas foram as palavras da mulher sentada na sua frente, uma desconhecida que finge saber a solução. Mas em nada do que falou estava errado, e era por isso que as lagrimas da menina vertiam possessivamente pelo seu rosto. Odiava chorar, é como ficar nu e tranparente. É a prova irrefutável da fraqueza. E como se precisasse justificar seu comportamento, mais para si mesma do que para a desconhecida, falou entre soluços vergonhosos:

- Tudo isso que falou é verdade. Você acha que eu não sei disso? Não precisa repetir o que digo para mim todos os dias, o que martela minha cabeça, esmaga meus olhos e amassa meu corpo. E saber é o pior, porque significa que você sabe o problema mas não consegue resolve-lo, é como se você tivesse noção do que é olhando pelo lado de fora, mas nada faz. E isso me torna pior que os outros, porque eu sei. Eu sei.
Existem pessoas fracas no mundo, pessoas que não aguentam e nunca se curam. Definham por dentro. Eu sou uma delas. As pessoas não acreditam no que seus olhos não podem ver, e isso é totalmente invisível, esta dentro e não fora. E ninguém acredita, nem você as vezes. Pedem para eu levantar, erguer a cabeça, seguir um caminho, mas não entendem que o que eu sinto rouba o desejo. "O que você precisa é de força de vontade" repetem incansavelmente  mas como ter força de vontade se ela não existe em mim? É como querer que um avião sem asas voe, ou um carro sem combustível ande. Querem que eu saia e faça algo mas pense que seu corpo foi drogado e você se sente incrivelmente fraca, você simplesmente levantaria da cama e sairia na rua? Não. É assim que eu me sinto todos os dias. 

Ela queria dizer mais, mas silenciou, sua pequena força havia se esgotado, sentia-se como um pedaço de pano molhado que foi espremido tantas vezes que nada de água restou. Então foi a desconhecida que falou:

- Você pode conseguir, eu vou te ajudar. Não vou desistir de você.

- Não faça uma promessa que não possa cumprir. Sempre desistem.   

E a conversa que havia custado 250 reais acabou por ali.

*título do post por Salvador Dali



13 março 2013

A Herança

Desde criança ela tinha certeza de duas coisas, nunca casaria e jamais teria filhos. Não que ela não acreditasse no amor ou odiasse crianças, ela apenas sabia que alguns amores apodrecem e não saberia lidar com crianças, mal sabia lidar com ela própria. E tinha aquele outro problema, sua herança. Não é de dinheiro que estamos falando, é uma herança diferente, que você provavelmente não levaria a sério, nem ela sabe se acredita ao menos, mas arriscar seria perigoso demais. É a escuridão, o vazio, a loucura, os monstros e o medo. Essa era sua grande herança.

Lembrava dos monstros do seu pai, tinham olhos arregalados, voz grossa, eram surdos e inquietos. Antigamente tinham marcas de furos em seus braços, um nariz que escorria, uma tosse incessante. Surgiam quando menos se esperava, podia ser durante um sorriso inclusive. Eles sempre escapavam. Ela os detestava e jurava baixinho que jamais teria aqueles monstros, que lutaria contra eles, que seria diferente. Grande engano, aqueles monstros já viviam dentro dela, e hoje são tão fortes quanto aqueles eram.

Não se pode culpar uma casa pelo que vive dentro dela, mas isso não importa, é quem vive ali que determinará sua ruína. Talvez, o que vivemos antes mesmo de sermos capazes de lembrar é o que nos define agora. E o futuro? Ele não existe.

A maldade é um manto escuro que molda sua alma. É como uma droga, que certamente não atingirá só você, haverá respingos de infelicidade por todos os lados. E são capazes de se reproduzir, uma tristeza hoje pode virar uma morte amanhã, não duvide disso. Ela sabia que sua herança não lhe permitiria ter filhos, não porque não pudesse, mas porque não cometeria o mesmo erro que os outros. Cortaria o mal pela raiz. 

Mas e o amor? Existe, mas é frágil como asas de borboletas e é a promessa de infinito que acaba por quebrá-lo. Você pode pensar que o amor é algo bom, claro como o sol, está errado. Eu e ela sabemos que o amor é cinza, e varia constantemente de escuridão infindável há claridade confortável.

Todos sabem que querer é diferente de fazer. Mas ela ainda não sabia. Pobre criança, ainda não entendia que o futuro fica repetindo o passado, em uma eterna brincadeira de rodar. Tudo acaba aonde começou.

Não lhes queria dizer o final dela, ela pode escutar, mas guardar segredo não é uma de minhas qualidades.

Ela se casará, e seu vestido será vermelho. Vermelho do sangue que irá derramar, dos olhos infantis assustados que irão lhe fitar. Das amoras apodrecidas do quintal que jamais limpará. Da raiva que irá lhe consumir enquanto deslizará a faca, que nem ao menos estará afiada, no coração daquele que amou. Respingos de sangue salpicarão tudo ao redor, e ela se lembrará de sua promessa. Tarde demais. 

Mal sabe que sua mãe e seu pai disseram a mesma coisa há alguns anos atrás. 


02 março 2013

Quando o bem e o mal se encontram

É mentira o que lhe contaram nas histórias infantis e nos contos de fadas. É mentira o que você assiste todo dia na novela. O mundo não é dividido em bom ou mal, ruins ou legais, vilões ou mocinhas. Desista de tentar ser o protagonista dessa história, ela já iniciou faz muito tempo e você é apenas um grão de areia nessa imensidão, e não, você não é o mocinho.

Queria que as coisas fossem fáceis assim, que as pessoas pudessem ser separadas e catalogadas, assim poderíamos saber o que esperar delas. Vilões seriam maus e mocinhos seriam bons, não é? Não. No mundo real o bom e o mal não se distinguem, se misturam como água e açúcar e as vezes é difícil diferenciá-los. Não existe personagens definidos, e você não salvará o mundo. Na verdade estarei muito surpresa se conseguir se salvar a si próprio.

Queria poder escrever contos, histórias de verdade, com início, meio e fim, que nem a professora da primeira série ensinou. Mas não consigo. Não consigo criar algo que não é real, eu posso viver na pele de outros personagens e sentir outros sentimentos, mas assim como na vida, não consigo dar um fim a elas. Não posso dividir vilões e mocinhos, não é possível, é mentira, é enganar. Depois você vai aprender que a mesma mão que afaga é a que fere, a mesma boca que fala palavras dóceis é a que solta veneno, o mesmo olhar complacente e amoroso é o mesmo olhar furioso, com raiva escorrendo ao invés de lágrimas. 

Um dia eu li, ainda quando era criança, em um daqueles livros velhos da biblioteca da escola, em uma seção que eu não deveria estar, que todos os seres humanos possuem um assassino dentro de si, que o mal e o bem são um só, e é só em determinados momentos que um deles ganha. Eu não acreditei, naquela época eu ainda queria salvar o mundo, ser diferente, especial. Hoje eu sei que aquelas palavras estavam certas, que o bem nunca viveu sem o mal, que você vai ser vilão um dia, mas também será o mocinho, assim mesmo, tudo junto. Que aquela pessoa que você sente segurança pode ser a mesma que irá te assustar e amedrontar. E você é capaz de amar quem te amedronta. 

Hoje não julgo tanto assim, não faço classificações  As vezes existem pessoas consumidas quase que inteiramente com o mal, quem tem uma boa percepção é capaz de sentir. Assim como existem pessoas preenchidas de um bem confortante, que chega a dar raiva. Mas ambos não são o vilão e o mocinho, são fantoches da vida, são vidas que seguiram caminhos diferentes, são almas, algumas perturbadas, outras leves, mas sem classificação maior que isso.

Você até pode esperar o bem e o mal se encontrar, pode esperar aquela luta épica em que depois de muito esforço o bem vencerá. Mas não irá acontecer assim. A verdadeira guerra é dentro de você.

Percebe os tiros nesse instante? Os gritos? A guerra já começou em você e durará até o fim da sua vida. 

"É a dúvida entre o que é realmente bom e o que é realmente ruim
Porque o certo pra você pode não fazer o mesmo efeito em mim
E se tratando de habitantes do mesmo planeta isso pode ser fatal
É a escolha entre seguir com o bem sem saber direito o que é o mal"
Detonautas