16 maio 2013

Você é feliz ou finge ser?



Fingir é algo tão comum quanto mentir. E então você se depara com aquele velho clichê "seja você mesmo, não finja...". Como deixar de fingir se eu sou o fingimento? Como ser eu mesma se sou tantas? Vocês me ensinaram a ser assim. Nunca escutei seus ritmos, mas aprendi a dançar a dança. Posso escutar vocês, mas vocês não dizem nada. São só vozes perdidas no espaço, sem nexo, sem propósito, que rebatem na minha alma e caem como cacos de vidros no chão. Os mesmos vidros daqueles pratos que eram quebrados, dos copos jogados ao chão. Daqueles sonhos que já se foram. 

Eu nasci com um problema invisível, ninguém nunca o viu, mas eu sentia. Vim ao mundo rápido demais, prematura. Todos achavam que era vontade de viver, mas era vontade de morrer, de fugir, eu sei. Quando nasci chorando ninguém na época foi capaz de dizer que eu seguiria chorando por um longo tempo, que rejeitaria qualquer contato, que me recusaria a tomar o leite, que recusaria o sono até não poder mais. Chorava tanto que me faltava o ar, minha pele pálida ficava roxa e parecia estar morrendo, nesse momento me contam que apenas com água gelada no meu rosto é que eu saia desse estado. Ninguém foi capaz de ver que eu tinha um problema realmente. Eu nasci fraca, sem proteção, emocionalmente afetada, e qualquer coisa me atingia. É claro que não lembro desses momentos, mas escutei minha querida família repetindo esses fatos milhares de vezes. Minhas lembranças realmente são muito poucas, fragmentadas, confusas, pausas em branco. Talvez porque nunca fui uma só para poder ter lembranças só minhas. 

Comecei a fingir quando fui na minha primeira escola, aos quatro anos. Não foi porque eu queria, mas eram oque ensinavam, e o que não ensinavam eu aprendi copiando. Mas havia brechas, se todos me olhassem, se falassem algo que de alguma maneira me perturbasse, eu chorava. E chorava. E chorava. Até meus pais virem me buscar. Eu queria minha Mãe, mas ela nunca podia, trabalhava demais, então sempre era meu pai que aparecia. Eu não gostava, ele brigava. Eu chorava mais.

Ao longo da minha infância passei boa parte sozinha, fingia qualquer doença ou empecilho para poder não ver ninguém, era extremamente nauseante fingir as vezes. Eu falava sozinha, dava vida aos meus bonecos só para matá-los depois, e assim sucessivamente. Era isso que eu queria fazer com todos.

Cresci. Infelizmente. Fingir quando se é criança era mais fácil e eu tinha 3 amigas. Depois nunca mais tive nenhuma. Comecei a perceber que existia um padrão no comportamento de todos, que existia sempre a repetição das mesmas palavras tolas, as mesmas expressões. Conclui que eles estavam dançando, mas eu não era capaz de escutar a música. Por isso observava e copiava na medida do possível. 

Queria tanto entender o mundo de vocês, a maneira que vivem, a perfeição que se auto projetam e exibem como troféu. Outra coisa que não entendo, como ninguém percebe essas farsas  Cheguei a conclusão que todos são cegos e que só conseguem ver a parte da verdade que mais lhe parecem confortável. Ou nada.

Mas eu vejo tudo. Sempre vi tudo. Escutei tudo. E entendi tudo.
 
E vocês pensavam que não, afinal, eu sabia fingir muito bem. 

Hoje eu cansei, é cansativo tudo isso e a minha mente não me deixa descansar já tem algumas semanas. Eu posso viver sem o mundo exterior enquanto você estiver comigo. Por isso não me diga o sermão de sempre "E seu eu morresse hoje? Como você sobreviveria?". Humanos burros, será meu primeiro pensamento, e daria a minha resposta de sempre "Eu não sobreviveria. Se você morresse hoje, eu morreria amanhã." 

Enquanto a morte não vem, vou fingir mais um pouco isso que todos chamam de vida. Se souber como acabar com o vazio, por favor, me procure.

Com carinho fingido, de alguém que você não conhece, 
Sofia.


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